Autismo – Retratado na série “Atypical”, uma mistura de humor e amor

serie atypical

Nesta série (Atypical) deslumbrei com a história de Sam Garner (Kier Gilchrist), diagnosticado TEA – Transtorno do espectro autista ou simplesmente, autismo, o protagonista de 18 anos que adora pinguins e a Antártida, elementos que trazem tranquilidade e conforto a imaginação da personagem.

A série tem como objetivo mostrar a capacidade do autista ao vencer as sensações e emoções que contemplam a juventude de uma forma bem humorada, que nos leva a refletir quanto a capacidade humana de superar limitações diante de qualquer dificuldade.

atypical loja de eletronicos

Sam, o protagonista,  trabalha numa loja de eletrônicos; cria regras; não suporta excesso de luzes e barulho; entende as palavras ao “pé da letra”, e expõe seus sentimentos com muita naturalidade, a essência da mais pura sinceridade; um jovem apaixonante, que semanalmente visita sua terapeuta para tentar encontrar respostas para seus anseios e desejos.

O Autismo diagnosticado, ainda na infância, fez com que, a mãe, de forma instintiva, mobilizasse a família em prol da proteção e defesa do pequeno autista, que cresceu e foi em busca da sua própria autonomia com ajuda da terapeuta capacitada que lhes encorajou e sustentou a ideia do seu crescimento emocional e intelectual.

sam e julia sessao terapiaEm uma das sessões com a terapeuta, Sam despertou o desejo de namorar, a partir deste fato, o protagonista de uma forma bem humorada interpretou a arte de amar numa versão singela e encantadora, e dentro do seu espectro*, descobriu todas as sensações e encantamentos pertinentes a qualquer adolescente.

* Recebe o nome de espectro do latim (spectrum), porque envolve situações e apresentações muito diferentes umas das outras, numa gradação que vai da mais leves à mais grave. Todas, porém, em menor ou maior grau estão relacionadas, com as dificuldades de comunicação e relacionamento social.

Para o nosso apaixonante protagonista, o autismo pode retardar o acontecimento dos fatos, mas não impedir que o um paciente diagnosticado consiga um dia conquistar seus ideais, não importa o tempo que dure para concretizar ou entender algo, o processo é árduo, acompanhado de  um turbilhão de emoções. A família apoia, sofre, e deve estar presente no momento de comemorar cada conquista.

A rotina escolar de Sam

O autismo tem como característica a preferência individual por áreas de estudo, não existe uma regra, no caso da persaonagem, gostava de estudar Biologia, dedicado, bom aluno de acordo com as suas necessidades, avançava gradativamente o  processo cognitivo e emocional, um histórico de inclusão escolar, retratado na série.

irma de sam atypical Durante o período em que Sam está na escola, conta com o apoio da irmã (interpretada por Brigette Lundy-Paine) que controla o dinheiro do lanche, na hora do intervalo escolar, uma adolescente de 16 anos, à disposição do autista para qualquer eventualidade, sabendo-se que o maior desafio é controlar as próprias emoções no meio social.

A personagem vivida pela irmã, apesar de presente e preocupada, apresentava seus momentos de ciúmes em relação a dedicação da família com o autista, mas não o abandonava e nem recusava ajudar.

A adolescente era atleta, e diante do seu desempenho nos campeonatos foi contemplada com uma bolsa de estudos, numa determinada instituição em outra cidade, a princípio todos os envolvidos pensaram na vida escolar do autista sem a presença da irmã, porém o próprio protagonista apoiou a conquista da irmã, montrando-se disposto a enfrentar mais um desafio, a autonomia no espaço escolar.

O ambiente para um autista nem sempre está favorável, ruídos repetitivos ou qualquer tipo de poluição sonora, assim como excesso de luzes,  podem causar uma desinstabilidade do sistema nervoso e gerar uma crise comportamental em qualquer lugar ou momento, a impulsividade não é controlada, não existe o pensar ao exercer um ação.

Os profissionais de educação devem estar atentos as reações dos alunos portadores de autismo, o processo de inclusão deverá contar com o apoio principalmente do grupo que vai conviver com o aluno, o professor como mediador deve fazer esta estratégia, oferecendo ao autista um ambiente tranquilo e favorável para o seu desenvolvimento cognitivo, porém para obter sucesso vai precisar criar vínculos com o grupo, onde todos sintam-se importantes na tarefa de incluir o autista ao ambiente social.

A reciprocidade do amor é um direito de todos

O autista, vivido por Sam, retrata o amor na sua mais sensível e conturbada emoção. Assíduo as sessões terapeutas, com o objetivo de desvendar os mistérios que pairavam a sua mente, a personagem levava um caderno, onde anotava todas as sua descobertas, e desenvolvia suas próprias análises sobre os aspectos sociais do cotidiano.

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Em uma dessas sessões o protagonista perguntou sobre como fazer para conhecer uma menina e namorar, neste momento o autista já estava envolvido pela profissional, que fazia muito bem a sua parte ao tentar afastar Sam de suas fantasias e desejos naturais do comportamento na faixa etária, com relação a ela.

É natural que para Sam, o processo de análise e compreensão do mundo seja mais complexo, apesar de  só tolerar “toques firmes”, ou seja, abraço bem apertado de forte pressão, o autista era encantador mesmo distante de leves carinhos, a necessidade de ser compreendido era um desfio constante, e a psicóloga o ajudava a entender e desvendar seus mistérios ocultos, numa relação de cumplicidade, por isso o interesse romântico pela profissional.

Determinado a conquistar a psicológa, Sam acredita na ideia de arrumar uma namorada para treinar as estratégias de sedução, nesta época o autista se aproximou do pai com a intensão de obter informações sobre o assunto. Ao solicitar ajuda, o pai descobre que o alvo romântico era a psicóloga.

Neste momento o pai conversa pacientemente com Sam, e explica que o seu relacionamento deve acontecer com uma menina da mesma idade, e não uma pessoa mais velha, o autista fica chateado, mas faz um esforço para entender as explicações, e continua a sua busca.

Administrar o amor, as sensações hormonais do corpo não é uma tarefa fácil para qualquer ser humano, é totalmente plausível para o autista um desconforto, instabilidade e confusão mental, foi difícil desprender-se da ideia de conquistar a psicóloga, e foi neste momento que a presença masculina foi extremamente importante, Sam contou com o apoio do pai e do seu melhor amigo, colega de trabalho da loja de eletrônicos, para o apoiar neste momento tão intenso.

Para surpresa do autista, uma menina tagarela e agitada apaixonou-se por Sam. Vamos imaginar depois de todos os relatos acima uma menina com essas características ao lado de Sam. Pois é! A princípio não deu muito certo, a ponto de Sam trancá-la no closet, para fazê-la parar de falar por algum tempo, e não pense que a apaixonada tagarela ofendeu-se. Não! Ficou tranquilamente organizando o closet até o pai de Sam descobrir e destrancá-la.

Numa determinada tarde Sam encontrou com a psicóloga, e comentou sobre o convite da suposta menina para lhe acompanhar ao baile de formatura, porém o autista estava preocupado, pois não sabia dançar a dois, conhecia apenas um único ritmo, que aprendeu observando a aula de dança da irmã. A profissional muito atenciosa, com a ideia de ajudar, dançou com o protagonista, e neste momento de descoberta, Sam entendeu o sentido do amor, pois nunca havia sentido algo tão especial.

Sam decidiu romper com a tão apaixonada menina tagarela e se declarar para o grande amor da sua vida; neste momento a profissional foi firme com o protagonista, fez-lhe entender que a relação entre eles era impossível, infelizmente presenciamos na série o surto* do autista, o recolhimento, a introspecção, a mudança para a sua “Antartida imaginária”, onde só havia espaço para a neve, o frio e silêncio gelado.

*manifestação súbita de alguma coisa, crise psicótica.

Sam confuso com seus sentimentos, já não sabia mais sobre sua presença no baile , mas  a menina tagarela não desistiu de Sam, apaixonada, alegre, cheia de vida, e muito irritada com o acontecido tem uma crise de fúria e vai à casa do autista expor o seu sentimento,  e aí a série apronta mais um desfio.

Uma noite inesquecível de silêncio e emoção

A menina tagarela promoveu na escola a ideia de um baile de formatura temático, que lembrasse a Antártida e o principal desfio seria o modelo de uma Festa Silenciosa, uma febre na Europa. Os fones de ouvido distribuídos na festa fazem com que todos possam escolher a sua frequência e curtir, desta forma Sam não seria incomodado pelo barulho que atormenta o autista.

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Sam ainda indeciso com ideia de namorar a menina tagarela, foi à festa, e para compor a decoração o pai de Sam construiu um Iglu, uma construção feita de neve e gelo, usada contra o frio extremo em regiões polares, a seu pedido, e não tinha melhor lugar para Sam se reconciliar com a menina, consciente e seguro dos seus sentimentos, deixou claro que não a amava, porém a menina tagarela relatou que podiam se divertir. O autista saiu do Iglu muito contente e contou a novidade da sua primeira descoberta amorosa aos seus amigos e parentes, na mais pura inocência e naturalidade; intensificando a ideia de que,  quando o sentimento é verdadeiro até o que pode ser considerado feio, pode tornar-se bonito através da essência do amor. 

 

Escrevi este relato inspirada na série “Atypical”, pensando nos muitos “Sam´s”,  e nas fragmentações do autismo que vivem no mundo, com o objetivo de alertar aos profissionais de educação e as famílias sobre a capacidade de desenvolvimento em qualquer deficiência.  Aos profissionais especializados em áreas específicas e educadores cabe aprimorar nosso conhecimento para auxiliar de forma significativa os portadores de necessidades especiais, e as famílias cabe o acalento de acreditar em dias melhores.

E a todos nós seres humanos, independente de área profissional, social, religião, cabe-nos acreditar que não existe limite, quando o amor é a base que sustenta as nossas emoções e nos faz cada dia melhores.

“Quem inventou o ditado ‘A prática leva à perfeição’ era idiota. Os humanos não podem ser perfeitos. Porque não somos máquinas.”

Série Atypical

 


Trailer da série Atypical